A tentativa de me comunicar através de um jogo de turnos e números

E um pequeno afeto para todos da minha jornada ainda inconclusiva
por Renan Tomazini

 

E u gosto muito de jogos de gerenciamento, apesar de não ser muito bom neles. Gosto especialmente dos por turnos. Mesmo antes de ter um computador, eu já conhecia jogos por turno, como Xadrez, Canastra, card games e Banco Imobiliário, entre outros. Sempre prestava atenção em alguns elementos específicos, aqueles que constroem a narrativa, os temas e como as mecânicas conversam, o que os estudiosos do game studies chamam de ludo-narrativa. Sendo fascinado por elas, eu ficava com perguntas sobre motivações e razões para aquelas decisões e mecânicas, tentando preencher as lacunas, principalmente quando não havia uma história acessível para mim, como era o caso dos card games, como Yugioh, onde o anime me explicava muito do que era aquela batalha e aquele mundo de trevas, monstros, dragões, fadas, demônios, magos e máquinas. Por que o cavalo anda em L? Será que ele dá uma corridinha, mas tem que desviar um pouco para acertar o objetivo? A torre é empurrada pelas rodas em linha reta, por isso não anda na diagonal? O bispo anda na diagonal porque é contra as regras da igreja ele andar em linha reta? O rei anda pouco por ter dificuldades de mobilidade? Mas e o peão, por que só uma casa?

 

Adentrei o mundo dos jogos de estratégia, apesar do meu primeiro game de computador não ter sido exatamente de gerenciamento por turnos. No entanto, ele de certa forma é de gerenciamento: The Sims 2, um simulador de uma vida cotidiana com influências de sitcom de comédia americana. Apesar disso, o jogo não focava apenas nos relacionamentos, como as séries costumavam fazer. Nele, tínhamos que cuidar das necessidades, utilizando o conceito de hierarquia de necessidades de Maslow para atender aos cuidados sociais, energia, fome, entre outros.

Outro jogo que consegui logo em seguida foi Army Men, um jogo já antigo na época, mas um RTS (estratégia em tempo real) muito divertido que também envolvia o gerenciamento de recursos para suas tropas de soldadinhos de plástico. Essa mistura de ação e gerenciamento me agradava muito, e com o tempo comecei com Age of Empires e Empire Earth, ambos focados em tropas e gestão de recursos. Descobri o Counter-Strike, que, por incrível que pareça, envolve uma economia avançada de round a round, sendo uma parte importante do jogo. No entanto, os jogos por turno estavam em baixa na minha vida, até que conheci Civilization.

Civilization tornava esse gerenciamento mais complexo, contando a história através de números. Utilizava esses números para expressar as diferentes personalidades de seus líderes, e cada civilização tinha habilidades únicas que faziam você sentir-se realmente no controle de uma cultura totalmente diferente toda vez que escolhia jogar com outra civilização.
Foi lá que descobri que esses números contam a história do jogo. Os Polinésios, por exemplo, tinham vantagem marítima no começo do jogo, permitindo-me explorar o mundo e estabelecer contato diplomático enquanto meus vizinhos ainda se desenvolviam. Os Hunos, sendo nômades, podiam mudar a base de sua civilização no tabuleiro, proporcionando uma vantagem estratégica diferenciada. Já os Maias possuíam uma agricultura avançada, e os números deles me mostravam que sua eficiência alimentar era seu ponto forte, possibilitando-me desenvolver minha civilização rapidamente ao jogar com eles.
Talvez por isso me interesse por estatística e data science, essa vontade de extrair dados e, principalmente, histórias a partir desses números, de tentar entender o mundo com essas médias, medianas, percentis, percentuais, valores mínimos e máximos… e, ao mesmo tempo, compreender quão complexo isso pode ser, percebendo como esses números ainda podem me enganar, levando em conta meu viés, o viés dos dados e minha tendência a interpretar os números. A complexidade do mundo real nem sempre pode ser traduzida por inteiros, decimais ou percentuais, pois o mundo é complexo. No entanto, eu gostaria de ao menos tentar compreendê-lo um pouco melhor, e os números me ajudam apesar de tudo.
Mas o mundo é complexo, os jogos também, há em todo o jogo um discurso político, por mais inclusivo que Civilization seja ele tem seus próprios pensamentos políticos colocados ali nos números, em Civilization em específico eu não fui muito a fundo, mas em outros dois games, bem… eu tentei.

 

 

Academia: School Simulator

 

Eu sou um estudante de Licenciatura em Computação, e logo um simulador de gerenciamento escolar me chamou a atenção. Ele me parecia — e acredito que seja — muito parecido com o Prison Simulator. Essa comparação provavelmente deixaria Michel Foucault com um largo sorriso, pois os jogos graficamente e conceitualmente se assemelham bastante.

Minhas expectativas eram altas, pois gosto muito das discussões sobre arquitetura em escolas, e o jogo me daria liberdade para criar minha utopia Freiriana-Montessoriana-Construtivista. No entanto, a decepção veio através dos números, da tendência do jogo e da falta de liberdade, além do reforço do esquema tradicional de educação. Ele poderia muito bem se chamar “Academia School Simulator 1930” devido às práticas ultrapassadas de pedagogia que o jogo contém.

Em resumo, eu contrato professores e monto a escola com funcionários e arquitetura, mas, no entanto… não tenho controle sobre o método pedagógico? Não posso gerenciar a escola do jeito que queria, focando nos resultados em notas dos meus estudantes e sua felicidade, além de aconselhar (ou mandar para detenção) alunos problemáticos. Bem, se o jogo quer ser um simulador de diretor de escola que está preso a um rígido controle tanto do estado quanto de pais, alunos e sociedade, buscando resultados e pensamento mercadológico, e não se importando com o aprendizado, apenas com o sucesso nas provas, então minha escola fica no topo do ranking e atrai mais investimentos. O jogo enfatiza que os alunos têm traços e aprendizados, e para minha surpresa, formei com honras um aluno terraplanista!

 

 

Se esse jogo fosse uma crítica a esse sistema educacional mercadológico ele seria genial, mas não me parece, a página de venda também não deixa claro, parece que falta algo, mas dá pra tirar essa reflexão dos números e narrativa que o jogo apresenta, tal como qualquer mídia temos uma polissemia de sentidos, talvez uma dissonância ludonarrativa, eu não o chamaria de simulador de gestão escolar, mas de administração escolar.

 

Rebel Inc.

 

Este é um jogo gerenciador disponível para celular e computador, bastante complexo. Seu objetivo é pacificar uma região geopoliticamente perturbada, saída de uma guerra com pouca ou nenhuma infraestrutura, envolvendo operações militares estrangeiras, rebeldes e recursos escassos. A arte do jogo faz uso de signos que remetem claramente ao Oriente Médio, região frequentemente desestabilizada, em grande parte, por ações de potências ocidentais. Isso me incomodou um pouco, porém, comecei a relevar, considerando que poderia ser uma crítica ou uma visão diferente.

De certa forma, até é uma crítica, pois as iniciativas de reconstrução partem das próprias comunidades locais. No jogo, você controla um governo local e suas escolhas vão gradualmente direcionando os eventos. Além disso, você escolhe um governante e alguns conselheiros que afetam a jogabilidade.

Apesar de tudo, algumas mecânicas me deixavam intrigado, algo que eu não entendia muito bem. Por exemplo, a corrupção aumentava conforme eu tentava implementar iniciativas para melhorar a vida dos civis. Além disso, eu podia chamar forças de uma coalizão estrangeira para me ajudar, o que era muito mais eficaz do que contar com as forças locais, embora ficasse claro que essas forças não tinham domínio geográfico e cultural da região. Também existia uma iniciativa no jogo para passar por cima dos meus opositores usando um tanque de guerra.

Devido a essas mecânicas, eu me sentia um pouco desconfortável com a abordagem do jogo, que parecia retratar situações complexas de forma simplista e estereotipada. Me diverti, mas fiquei pensativo.

Meu gerenciador — Universitamagochi

Esses exemplos fazem parte da minha história com os jogos de gerenciamento, que me levaram até aqui. Tudo começou quando eu estava pedindo ajuda financeira ao meu pai, já que ainda não estou conseguindo pagar todas as contas sozinho. Dentro da minha pequena kitnet, eu me sentia como um bicho em cativeiro, um animal sendo cuidado, onde meu pai mandava os recursos e eu era gerenciado para continuar meus estudos.

Nessa mesma época, Vírgula Leal da Jogo Joia, um desenvolvedor de jogos que admiro muito, lançou o jogo Ovivim, que é jogado pelo chat da Twitch e envolve cuidados com um monstrinho.
Fascinado por mais esse jogo, lembrando do The Sims, dos jogos por turno, e de como os números comunicam, tive a ideia da criação de um gerenciador universitário, mas não de qualquer um, mas de mim enquanto universitário, em outro estado, longe da família, em um mundo de flexibilização trabalhista, redes sociais, onde todo mundo é dev, te vendem coisas o tempo todo em tudo quanto é rede, com influencers, onde minha maior felicidade é estudar e jogar e às vezes nem a universidade me ajuda nisso, vivendo com meus 2 fluoxetina pela manhã para aguentar o dia e a rotina de trabalho, estudo, voltar pra casa, sofrer de insônia para recomeçar tudo de novo no dia seguinte em um ciclo que parece não acabar, em parte por incompetência minha, parte por causa da rotina, parte por coisas incontroláveis para mim como lugar para morar, doenças, pandemia, greve de professor, greve de ônibus, especulação imobiliária, assalto, relacionamentos, catástrofe climática, cidade hostil, entre diversas coisas que eu nem acredito que acontecem, comecei a pensar no Universitamagochi.

 

 


 

O início

Primeiramente, entendo de Unity, mas resolvi não usá-la. Estou enferrujado com o C# (trabalho com Delphi Pascal atualmente), e seria um projeto simples demais. Pensei em fazer no próprio Delphi Pascal, mas eu não aguento mais ver sua tela na minha frente hahaha (apesar de provavelmente um dia farei a versão mobile nele).

Queria que todos meus amigos pudessem jogar, pois mais do que um jogo, seria uma forma de comunicar o que eu passo, os meus problemas atuais de gerenciar tempo, estar sempre sem grana, não conseguir dormir direito, e de estar tentando ao máximo me dedicar aos estudos, mas vários empecilhos fora do meu controle atrapalham o caminho. Por ironia, esse jogo estava apenas planejado por muito tempo; eu sempre pensava em implementá-lo, mas tinha outras coisas na fila de prioridades da vida. Engraçado.

Os jogos têm essa capacidade de colocar você no papel de outra pessoa, uma máquina de empatia fantástica, muitas vezes usada apenas para fantasias de poder violento. Eu mesmo estava sendo o presidente e general nos meus jogos de gerenciamento, mas é nessa simplicidade cotidiana que os jogos, enquanto mídia, parecem brilhar de verdade.

Dei início ao projeto como página web usando Jquery, ultrapassado? Talvez, mas foi uma escolha de acessibilidade para me comunicar com maior número possível de pessoas.

Arte

No começo, queria fazer algo meio Tamagotchi antigo mesmo, com a tela verde e os pixels pretos, aquele visual retrô de celular velho, de calculadora. Mas eu já tinha um boneco pronto em pixel art, então resolvi usá-lo. Pensei em pedir ajuda para os artistas que conheço, mas como já dito, estou com pouca grana, pouco tempo e pouca noção do que fazer, e não queria atrapalhar ninguém. Então, pedi para uma IA gerar cenários em Pixel Art 16 bits para mim. Não é nem de longe a melhor solução e me deixa muito fora do controle criativo sobre os cenários do meu jogo, mas era o que eu precisava por enquanto. Versões futuras contarão com cenários elaborados por artistas, mas não essa.

A interface do website ao redor tinha que lembrar, ao mesmo tempo, o brutalismo de sites dos anos 2000, a vida de estudante e ser responsiva. Nisso, passei por várias versões até decidir por um fundo de caderno escolar quadriculado e várias cores de post-it.

A fonte escolhida, Pangolin, foi escolhida por lembrar escritos feitos à mão, com cor de caneta azul. Assim, eu tinha a arte geral do meu jogo pronta.

Programando necessidades

A primeira coisa foi olhar novamente para a hierarquia de necessidades de Maslow, como em The Sims, mas simplifiquei e perguntei a mim mesmo quais as necessidades básicas que tenho. Não consegui hierarquizá-las, mas pensei nas que conseguiria comunicar melhor, expressando como me sinto em meu cativeiro.

Com isso, cheguei em

  • Saúde
    Que é a primeira que pensei, pois sem ela as outras acabam sendo afetadas, e eu a deixo muitas vezes de lado pelas outras, o que nem sempre é algo saudável mas necessário para minha sobrevivência por aqui.
  • Ânimo
    Aqui, meu emocional mais específico, a vontade de sair da cama. O que muitos não sabem sobre depressão é que ela não é apenas tristeza, pelo menos não apenas isso; muitas vezes, é a falta de disposição para fazer tarefas básicas, coisas que, às vezes, me davam prazer, mas que agora acabam não sendo feitas, pois minha vontade é, muitas vezes, passar o dia na cama rolando o feed infinito de alguma rede social que só quer me vender produtos, ou no Mastodon, que não quer isso e me ajuda um pouco. Agradeço às pessoas de lá. Quase tudo no jogo afeta aqui.
  • Fome
    Bem, esse é básico, você sente fome todos os dias da sua vida. Me aprofundo mais sobre a alimentação mais tarde.
  • Energia
    Diferente do ânimo, esse é o resultado do sono, da comida e da noite mal dormida, a agitação e ansiedade da noite, das provas em breve, da entrevista de emprego, de se eu vou conseguir comer amanhã, tudo isso afeta aqui.
  • Limpeza
    Eu sou uma pessoa gorda, e graças a isso, eu tenho um trauma, uma defesa, uma mania gigantesca por limpeza do meu próprio corpo. Embora a depressão não contribua para o ânimo de fazer muitas coisas, os corpos gordos em muitas mídias, e até em comentários de familiares ou gente dita progressista , super cool e descolada, são associados à preguiça, falta de cuidado, má higiene, e etc. E por isso mesmo, eu sinto que preciso estar me limpando e higienizando muito mais do que outras pessoas, e aqui eu coloquei como uma necessidade básica.
  • Dinheiro
    Bem, aqui é onde o jogo começa. Eu tenho uma tabela de gastos, meu pai tem outra tabela de gastos, e temos um teto de gastos. No meu caso, tenho um diário com tudo que posso gastar, planejamento de transporte, comida e tantos outros… chato, né? Ainda mais chato é ficar sem dinheiro, não conseguir administrar as outras necessidades básicas, ficar deprimido sem saber o que vou comer, sem poder ter diversões como ir ao cinema, e ficar me sentindo culpado por comprar um jogo de 15 reais na Steam, afinal, isso daria o preço de uma marmita! Bem, grande parte dos meus outros problemas seriam resolvidos com um cheat engine, um programa que troca as variáveis de um jogo, colocando o famoso 9999999999 na minha conta financeira.

Ações e suas mecânicas

Peguei meu diário de afazeres e procurei os que eu faço que afetam todas as necessidades listadas. Mas mais que isso, aqui eu fiz algo para me comunicar e deixar mais tamagotchi. O jogador, nessa versão pessoal minha, não escolhe o que vai acontecer durante a ação, apenas que ele vai executar a ação.

Então, vamos uma por uma:

  • Comer
    Bem, temos que comer. Às vezes, isso recupera o ânimo e me deixa feliz; outras vezes, me faz mal, depende da comida. Mas o jogador não tem controle do que eu vou comer, mas… eu tenho? Frequentemente, pego os alimentos mais baratos no mercado, como o que estiver disponível no restaurante universitário da UFRPE e como biscoitos maizena que estão na prateleira promocional de vencer em breve. Não tenho muita escolha sobre o que vou comer, como o que dá. Às vezes, me agrado com uma pizza, mas sempre com aquele peso, tanto da alimentação não saudável quanto de ter pago no mínimo 30 reais em um pão com queijo em cima. Comer deveria ser algo mais prazeroso. Muitas vezes, me pego pensando e fazendo planos de comer algo, de cozinhar algo, de ir com mais pessoas dividir algo, mas tudo isso esbarra na realidade.
  • Banho
    Coloquei diferentes tipos de banho, embora eu só possa tomar o de chuveiro ensaboado, mas eu gostaria muito de ter esses diferentes tipos de banho na minha vida. Recuperar meu ânimo com uma sessão de banho gelado parece algo tão bom, produtos de limpeza de pele, rosto, barba, perfumes… tudo isso é tão reconfortante comigo mesmo, mas ao mesmo tempo, sinto aquela culpa de gastar com isso e de perder tempo demais em uma tarefa que deveria ser apenas mecanicamente feita, de lavar o corpo.
  • Dormir
    Dormir é básico, todos precisam, e meu sono é afetado por tantas coisas. Transmiti isso no jogo, embora nessa versão eu tenha tirado a “insônia” por achar uma mecânica cruel demais para o jogador e que deixava o jogo praticamente impossível! Mas é o que acontece (inclusive no momento em que escrevo o texto), o mundo não parece um lugar para mim, que sou uma pessoa noturna, madrugadeira e nada diurna. Eu preciso trabalhar pela manhã, estudar à tarde e à noite, mas é na madrugada que me sinto confortável. Quis transmitir isso afetando o ânimo quando durmo durante o jogo e, apesar de querer muito, tirei a insônia do jogo.
  • Estudar
    É uma das coisas que gosto, mas que tem poréns. Estudar e saber é muito prazeroso, assim como estudar e aplicar, criando coisas e colocando em prática suas ideias. A aula, quando ministrada por um professor apaixonado pelo assunto ou por um colega que explica de forma entusiasmada o que ele gosta, também me deixa feliz. Porém, atravessar a cidade inteira, chegar em uma aula de oito horas da noite após um dia cansativo, apenas para um professor que nem gosta tanto do que está fazendo ler slides ao vivo para mim, me deixa extremamente desmotivado. Perdi as contas de quantas vezes eu ia nessas aulas e perdia todo o interesse no assunto, por ver uma explicação de slides ou a matéria sendo passada de forma mecânica e descontextualizada, apenas para responder a prova em outro dia.
  • Trabalhar
    É essencial para sobreviver, mas tão difícil. Não há escolha no jogo, pois na vida também não há, pelo menos para mim. Me candidatei tantas vezes, fiz tantas entrevistas de emprego, tentei tantas vezes até conseguir. Não tive escolha, apenas peguei o que tinha para mim no momento; a mecânica do jogo é isso. E o trabalho, por melhor que seja, como o meu atual, ainda assim te cansa, te destrói, te faz precisar de descanso no final dele. O jogo transmite tudo isso. No final, trabalhar é uma necessidade pelo dinheiro, mas que nem sempre se paga. O aprendizado é bom, o ambiente é bom, os colegas são bons, mas você ainda tem horário, prazos, metas e alienação do produto do seu trabalho e de você, por mais criativo que seja seu emprego.
  • Jogar
    A máquina de empatia, e ao mesmo tempo meu escapismo, o que adoro fazer, das fantasias de poder a me tornar um trabalhador de entregas de buraco em forma de guaxinim, um fazendeiro em uma pequena cidade ou o próprio matador de deuses. Os jogos me fazem bem, mas podem alterar outros estados emocionais, é sempre uma surpresa. Um jogo online pode me dar emoções de raiva e frustração da mesma forma que pode me divertir, é um poder fantástico de transmissão de ideias nessas ficções interativas. Adoro jogos eletrônicos.

Tempo

Cronofobia, medo do tempo ou de sua passagem. Estou há alguns anos no curso em que estou, na cidade em que estou. Demorei muito tempo para conseguir os empregos, demorei um tempo para chegar nesse finalzinho de curso, demorei? Sempre atrasado? O que aconteceu com esses anos que passaram? Me senti muitas vezes preso em um ciclo, um sísifo educacional, de reprovar na disciplina, voltar e tentar de novo, e novamente e novamente, até conseguir. Na pandemia, isso se amplificou. Eu fazia coisas em horários coordenados, acabava com a sensação de estar preso em loop, sempre a mesma coisa, sempre aquilo, sempre… No jogo, eu espero que passe essa sensação de ciclo, de estar preso em algo. Coloquei contador de dias e de horas para gerar a pontuação ao final do jogo, juntamente com a porcentagem do curso se foi desistente ou concluído. Já estive perto da desistência também, mas hoje mais da conclusão. Essa pontuação pode ser compartilhada em um perda tempo, conhecido como Twitter, onde várias pessoas, algumas qualificadas ou não, podem ver e interagir sobre diversos assuntos, e com o Mastodon, que é como uma pequena cidadezinha com amigos, onde o tempo parece passar mais devagar com pessoas mais compreensíveis do que na rede do pássaro. Por turnos tudo fica mais contável e repetitivo.

Conclusão e abandono

Meu curso, Licenciatura em Computação, tem um dado curioso: pouquíssimas pessoas se formam dos 40 que entram. Vejo semestres formando apenas 2 pessoas, com alta taxa de abandono e desistência. Muitas vezes fico sem saber o motivo, aquele colega apenas sumiu, o que houve com ele? Bem, eu especulo com meu jogo. São vários os motivos de abandono, eu dou alguns quando você perde no jogo, e quando conclui também, pois da faculdade você leva o diploma e alguns bônus desagradáveis. Fome, falta de dinheiro, depressão, trabalho, energia, morar em Abreu e Lima… são tantos os motivos, não os culpo pelo abandono, culpo mesmo é a direção da instituição, um pouco a coordenação, mas vejo que fazem o que podem. A instituição tem tão poucas políticas para manter as pessoas estudando, assim como as administrações municipais que fazem de Recife uma cidade tão hostil para as pessoas que muitas não gostam de sair de casa para o básico, e a administração federal que olha apenas para os números e conclui que, se está formando pouco, não vale a pena investir ainda mais (olha o jogo Academi Scholar aí). As pessoas em peso ficam fazendo piadas e rindo quando digo que é uma Licenciatura. A falta de um programa de carreira decente para os professores de ensino fundamental e médio, muitas vezes desprezados por seus pares acadêmicos do ensino superior, inclusive com exemplos dentro da universidade. Tanta coisa fora do meu controle, e ainda assim uma parcela de culpa é minha, por ter essa vontade de desistir, de não sair da cama, de me dar satisfeito por saber o superficial e apenas querer um emprego… mas também não, eu não quero o superficial, eu amo Licenciatura e amo Computação.
Com todo o amor que tenho por esse curso, por essa universidade, eu espero mesmo que algum dia o tratamento seja diferente, as condições sejam diferentes, que os estudantes possam apenas estudar e dedicar-se ao conhecimento, que não haja as piadas com licenciandos e que possamos parar um tempinho do dia para ir na nossa sala de recreação, beber um café, reclamar das provas e jogar ping pong.

 

Fim?
Esse projeto é um rascunho, um mero rodapé que fiz em tempo vago, mas com amor, carinho e tentando ao máximo expressar o que sinto para todos que jogaram. É uma carta de amor e ódio à minha rotina, um grito desesperado de todos os universitários em rotinas exaustivas, e ao mesmo tempo uma exaltação do ambiente da universidade, do conhecimento e de todo amor que tenho por Licenciatura em Computação.

Obrigado aos meus pais por se esforçarem para me manter aqui, minha irmã que frequentemente testa meus jogos e ideias, obrigado aos meus professores (exceto alguns hehe) que conseguem demonstrar todo amor pelo conhecimento, obrigado aos meus colegas de licenciatura que mesmo soterrados em tantas dificuldades, tanta ojeriza por parte de alguns, ainda conseguem brincar, sorrir, se dedicar aos projetos e conhecimentos. Obrigado a todos.

Jogo disponibilizado em: https://rtomazini42.github.io/Universitamagochi/

 

 

 

 

 

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